Pra quem é o BDSM?
Quando o prazer é vendido como liberdade, mas ainda é privilégio.
Esse fim de semana, eu perdi minha virgindade de cenas públicas. Fui convidada para me apresentar no Dominatrix Augusta — uma das casas fetichistas mais icônicas de São Paulo.
E pra quem acompanha minha trajetória, sabe o que isso significa. Era um sonho, que confesso, por muito tempo pareceu distante. Nunca tive condições de frequentar esses espaços. As duas únicas vezes que fui, uma eu ganhei de graça, e a outra, fui como performer.
Então estar ali, reconhecida, sendo dominada, conduzida, espancada e amarrada em um dos palcos mais simbólicos da cena kink paulista… foi intenso, emocionante, transformador.
Mas também me deixou com uma pergunta ecoando forte na cabeça: pra quem é o BDSM?
O incômodo no meio do encantamento
Enquanto eu respirava fundo, e me recuperava de uma das cenas mais intensas que vivi ate hoje, ainda com a adrenalina no corpo…eu olhei ao redor, e em meio a tantas pessoas, vi UMA única pessoa preta.
E aquele número me atravessou. Porque por mais que o BDSM se venda como um espaço de liberdade e expressão, ele ainda é, em muitos sentidos, um espaço de exclusão disfarçada de sofisticação.
O BDSM que chegou ao Brasil veio da Europa, dos anos 70 e 80. E quem você acha que tinha acesso a esse universo lá atrás? Pessoas brancos, predominantemente Cis e de classe alta. Gente com dinheiro pra viajar, estudar fora, frequentar círculos fechados.
Sem TikTok, sem Google, sem Instagram, o conhecimento era passado entre poucos. E esses poucos eram sempre os mesmos. Décadas depois, o mundo mudou, mas a estrutura… nem tanto.
Um espaço “livre” que ainda é elitizado
Mesmo com a internet, mais visibilidade e informação, os espaços fetichistas seguem elitizados. Vamos ser sinceros: quem realmente pode pagar 40 reais (sem consumação) pra um rolê que termina às 3 da manhã, no centro de São Paulo?
Com quem o BDSM é inclusivo? Porque não é com a mulher preta, mãe solo, periférica, que trabalha o dia todo e mora longe. Não é com o cara que tem curiosidade, mas não tem coragem — nem dinheiro — pra entrar nesses lugares.
E é aqui que a contradição dói mais: um espaço que fala de liberdade, mas segue cheio de muros.
Já ouvi de um dominador antigo, desses que se autointitulam “fundadores do BDSM no Brasil”, que o meio é “orgulhosamente excludente”. E que precisa ser assim pra “manter a ordem”.
Mas que ordem é essa?
A que mantém corpos pretos e periféricos de fora?
A que protege o conforto de quem sempre teve acesso?
A que diz o que pode e o que não pode, enquanto se gaba de falar sobre liberdade?
Porque pra mim, liberdade que não é compartilhada é só privilégio disfarçado.
A mudança começa de dentro (e de fora também)
Eu sou imensamente grata por estar nesses espaços.
Por poder performar, ser reconhecida, estar em palcos que um dia eu achei inalcançáveis. Ter o privilegio de poder sair daqui do meu interior para bater lá em SP.
Mas é justamente por estar dentro que eu vejo o quanto ainda falta. E é de fora pra dentro que a mudança precisa acontecer, abrindo caminhos, ampliando acesso e permitindo que mais pessoas vivam o prazer de forma segura, consciente e acessível.
Porque fetichistas existem em todos os lugares, de Alagoas à Serra Gaúcha,
da periferia ao centro. E todos merecem o direito de explorar o desejo com dignidade, respeito e segurança.
No dia 17, vamos fazer um anúncio que pode mudar tudo isso. Uma proposta diferente do que você costuma ver por aí, acessível, inclusiva e feita pra todos os corpos, todas as realidades e todos os desejos.
Porque prazer não devia ser privilégio. E liberdade, muito menos.
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Beijos, Mel da Kynktopia.



Extremamente necessário esse texto, que ele alcance mais pessoas. Parabéns !
Excelente texto